ID – UM JOGO CHAMADO PROBABILIDADE

Redução da maioridade penal e impunidade são o que clama a sociedade. Passeatas, projetos, discursos políticos de como os jovens estão mais violentos e matando mais. E nenhuma ação concreta que ampare e fundamente um resultado verdadeiro de redução da criminalidade. Todos acreditam em um raciocínio raso, e pedem uma legislação de emergência diante da divulgação do último tenebroso crime.

Quando se reflete mais profundamente e buscam-se as estatísticas, no entanto, nos deparamos com uma realidade bem diferente. A parcela de jovens internados na Fundação Casa[i], em São Paulo, que cometeu latrocínio, ou seja, roubo seguido de morte é de apenas 1%. Ali, 80% dos internos são acusados de crimes relacionados a roubo e tráfico de drogas. Enquanto isso, 73,2% dos jovens no Brasil morreram de causas violentas e o homicídio é responsável por 38,6% de todas as mortes de jovens no país. Mas isso não está sendo divulgado. Não se quer diminuir a mortalidade juvenil, e sim a maioridade penal. Agora o menor de idade é demonizado, culpado de todo mal, e não vítima de violência.

Em vez de discursos rasos e soluções rápidas, devíamos discutir mais sobre a elucidação de crimes no país, porque a possibilidade de ser punido inibe muito mais os criminosos do que qualquer lei rigorosa que possa existir. Mais efetivo que o aumento das penas por crime cometido é a certeza de que vai ser punido.

Como vocês acham que certo João, bandido conhecido e de longa ficha policial, decide se vai continuar na vida criminosa ou não? Imagino que ele faça como os grandes empresários: uma boa análise de risco, ou seja, depois de ter uma ideia genial, prepara um “projeto” com todos os passos necessários para alcançar seus objetivos, levanta o risco de obter sucesso ou não e então decide se vai agir ou se desiste. João tem “sorte”, mora no Brasil. O crime compensa.

Se decidir tirar a vida de alguém, suas chances de êxito, matar sem que nunca a polícia o identifique como autor, são de 94%[ii]. Se João morar no Rio de Janeiro e decidir roubar, suas chances de sucesso são de 97%[iii]. Desconheço números mais otimistas que esses em qualquer área de mercado atualmente. Não existe negócio melhor em nosso país, com maiores chances de “retorno de investimento x risco”.

Se João morasse nos EUA ou Europa, suas chances de sucesso em carreira criminosa estariam reduzidas para 20% a 30%. Na Inglaterra, a probabilidade dele ir para a cadeia seria de 90%. Pouca gente enfrenta um risco desses!

Como reduzir nossa taxa de criminalidade? Hoje não tenho mais dúvidas que o aumento das penas e da punição como arma de combate contra o crime é risível. Ninguém leva em conta o tempo que vai ficar na cadeia, simplesmente porque só uma mínima quantidade de crimes é elucidada. E jogar menores de idade na cadeia como adultos só faz incrementar a carreira nessa “escola de crime”.

É hora de investir na capacitação da polícia, civil, militar e científica, com novas técnicas de investigação, e equipá-los com uma nova geração de instrumentos. Bancos de dados à disposição, computadores de bordo com acesso a esses dados, banco de digitais e DNA como identificação em nível nacional para confronto, contratações mais que adiadas de novos policiais e peritos. É hora de investir no jovem, na sua inserção, na sua educação.

Só assim João, ao fazer sua análise de risco de nova “empreitada”, talvez abandone a ideia porque realmente pode acabar preso. O crime não compensará. E então poderemos discutir as penas impostas pela lei.

[i] (Fundação Casa – Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente – 2013)

[ii] (Revista Perícia Federal Ano IX – Número 26).

[iii] (Pesquisa da UERJ – Sociólogos Ignácio Cano e Taís Duarte)

Esta entrada foi publicada em Sem categoria. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *