CRIME EM FAMÍLIA DE POLICIAIS

As diferenças entre ficção e realidade podem ser imensas. Diante de crime bárbaro, trágico e chocante, de uma família inteira de policiais assassinados, assisto impactada a cobertura da mídia e a precipitação da polícia em alimentar os veículos de comunicação com possíveis respostas e conclusões.

Sim, claro que a tese da polícia nesse caso pode ser viável, isso é indiscutível. Mas apenas após 48h do crime, sem amparo de laudos periciais conclusivos, pode-se estar cometendo uma das maiores injustiças com uma criança morta, daqui para frente estigmatizada com a pecha de assassino dos próprios pais, avó e tia. Em análise criminal séria dos acontecimentos, algumas dúvidas permanecem suspensas.

O lide da investigação tradicional de homicídios contém as sete perguntas tradicionais obrigatórias da investigação clássica:

I – O que?
II – Quando?
III – Onde?
IV – Como?
V – Por quê?
VI – Quem é a vítima?
VII – Quem é o autor?

A grande pergunta: por quê? O suspeito apontado como mais provável é menino com doença degenerativa, debilitante, que obrigatoriamente estreita o laço entre ele e seus pais, para que o prognóstico de tempo de vida seja mais longo, como noticiado. Não se sabe de histórico de violência doméstica ali, além de colegas e professores descreverem um menino saudável, com amigos, risonho, que não se destacou por nenhum comportamento deturpado ou de exclusão. Que ampare essa tese no quesito “perfil”, temos apenas um colega de classe que “disse que ele disse” que queria matar os pais e ser matador de aluguel. Marcelo, o acusado, não pode confirmar nem desmentir, está morto. Seus pais, pessoas que poderiam esclarecer melhor, são as próprias vitimas do assassinato, morreram com ele. Qual teria sido seu motivo? Haveria outras pessoas com motivação e habilidade mais consistente que deveriam também ser investigadas?

Para que se comprove que o filho cometeu tamanha atrocidade, temos perguntas técnicas importantíssimas ainda não respondidas. Tempo de morte de cada vítima. Sinais inequívocos de que pai e mãe, policiais treinados para o enfrentamento e desarmamento de suspeitos, não reagiram. Resíduos de medicamento ingerido pelas vítimas para que estivessem desacordadas. Acesso do suspeito a esses medicamentos, bem como a possibilidade de disfarçá-lo para que fossem ingeridos involuntariamente. Balística correlacionando quem foi morto a partir de qual arma, uma vez que havia várias na cena do crime (os pais trabalhavam armados) e nem ainda sabemos se foi uma delas a utilizada no assassinato. Havia digitais de outra pessoa, que não da família, dentro do carro?

Análise das filmagens da câmera de segurança, apontando respostas para as cenas assistidas, concluindo se o menino desceu pela porta do motorista ou não, se era ele mesmo ali, compatível em altura e vestimenta, além da mochila. Padrão das manchas de sangue no interior das residências, para que possamos reconstruir os movimentos de todos no momento do crime. Considere-se aqui que o resultado do residuográfico nas mãos do suspeito deu negativo. Nas mãos dos pais não foi coletado, mas não seria estranho dar positivo, uma vez que ambos são policiais.

A mídia torna alguns achados periciais relevantes como se fosse em enredo de novela, pertinente apenas à trama de ficção. Um fio de cabelo da mãe na mão do filho não significa absolutamente nada, eles conviviam literalmente como mãe e filho. Sua doença não atinge seus portadores com transtornos mentais, poderia ser causa de suicídio, não de assassinato. Jogar videogame, andar de mochila e moletom são características de qualquer criança nessa idade. Tiro de execução na cabeça em vítima desacordada, em geral, é encostado mesmo, não chama atenção nem é mais cruel.

Fácil fazer conjecturas, difícil corroborá-las com as provas apropriadas. Enquanto isso, imagino o desespero da família que, além de perder 5 entes amados de uma só vez, vê um dos seus indefeso e acusado de crime brutal em todos os canais de televisão, com a pouca vida que tinha esgarçada por inferências , estereótipos e estigmas. Já vimos isso antes, quando uma possibilidade se transforma em verdade absoluta, com direito a comentaristas imaginativos que estariam melhor dando seus depoimentos sobre comportamentos supostos em campos de futebol.

Gostaria de viver em um país onde não fosse regra apenas o in dúbio (em dúvida) pró réu, mas o in dúbio pró suspeito, uma vez que não há ainda qualquer conclusão científica que ampare uma conclusão definitiva.

Publicado originalmente no site do Investigação Discovery – http://id.discoverybrasil.uol.com.br/ilana-casoy-crime-em-familia-de-policiais/

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3 respostas a CRIME EM FAMÍLIA DE POLICIAIS

  1. Luiza disse:

    Partilho da mesma opinião. Os mesmos pontos levantados aqui, questionei-me quando tomei conhecimento do caso.

  2. zelia felix duarte disse:

    Olá Ilana.

    Também não me sinto confortável suspeitando de uma criança cuja idade é a mesma do meu filho, contudo não vejo outra possibilidade.

    Não tenho dúvida de que o local dos crimes foi incansavelmente periciado visto que para a polícia era importantíssimo encontrar e prender o culpado. Se concluiu-se que o garoto foi o autor só me resta aceitar o resultado da investigação.

  3. Rafael Mattos disse:

    Este crime provavelmente não será solucionado. Acompanhando pelos telejornais percebi uma necessidade urgente de encontrar um culpado para abafar o caso, talvez para esconder coisas piores. Caso tenha sido o menino mesmo, ele era um gênio maquiavélico, com uma frieza de sentimentos raríssimas de se ver em um cérebro em formação… nunca vamos saber, forças maiores impedirão. Triste viver num país assim.

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