CRIME EM SÉRIE À BRASILEIRA

A situação de investigação dos crimes em série no Brasil é preocupante. Apesar de sua raridade estatística, o estrago social que provocam é contundente. Quando os crimes são conectados como sendo de mesma autoria, se o são, o número de vítimas já é bastante elevado e a sensação de impunidade é amplificada pelos meios de comunicação, gerando sensação de medo e insegurança ainda maiores.

Em outros países, conectando-se os casos mais rapidamente e ainda com número baixo de vítimas, por meio da aplicação de metodologia específica e instrumentos desenvolvidos para esta finalidade, assassinos em série são identificados e presos antes que cometam tantos crimes.

As técnicas de investigação apresentadas para os homicídios tradicionais e em série merecem tratamento diferenciado. Nos casos de crime em série, cada inquérito tem poucas evidências e pistas, mas o conjunto deles multiplica as informações. Há muito, em outras partes do mundo, estudam-se formas específicas de investigação para crimes deste tipo, adotando uma abordagem multidisciplinar, na qual vários fatores biológicos, sociais e psicológicos são considerados para que modernos instrumentos, auxiliares aos trabalhos policiais, como o perfil criminal, possam ser utilizados. Rapidamente compõe-se o que se chama “força-tarefa”, um grupo de pessoas que trabalha para um determinado objetivo, especialmente designado em caráter particular. Os modernos analistas criminais fundamentam seus métodos no estudo da criminalidade e do comportamento criminoso (criminologia), no estudo da saúde e doença mental (psicologia e psiquiatria) e no exame das provas físicas (ciências forenses). O principal objetivo é de afunilar a investigação para obter um menor número de suspeitos, definir a estratégia de trabalho, desenvolver método de interrogatório, elaborar busca de provas mediante suspeito e obter insight da motivação do crime. Provas técnicas bem alicerçadas na fase policial fundamentarão o trabalho do Ministério Público, encarregado inicialmente de fazer a denúncia, ou do Judiciário, que decide pelo seu recebimento.

Um bom exemplo de como a multidisciplinaridade contribui, de fato, para o esclarecimento dos crimes, foi o caso do “Maníaco de Contagem”, em Minas Gerais. O ano era 2010. Cinco mulheres foram encontradas brutalmente estupradas e mortas naquele município. À época dos crimes, fui convidada pelo delegado Frederico Abelha, que desconfiou da ação de um mesmo indivíduo, para compor uma força-tarefa e analisar o caso. Em menos de uma semana, com a análise criminal encerrada, Marcos Antunes Trigueiro estava preso com três dos celulares das vítimas em casa. Os olhares multidisciplinares se complementaram.  Estava definido o padrão de comportamento do assassino, o modus operandi e a “assinatura” de crime, além do objeto que levou como troféu dos assassinatos: os aparelhos celulares das vítimas. O DNA de Trigueiro foi testado e combinou com o do agressor. Caso resolvido. Criminoso já condenado sem dificuldades, por júri popular, a 127 anos de prisão.

Por isso tudo, pelo que acompanho pela imprensa, causa preocupação, a forma como vem sendo investigados os mais de quinze assassinatos supostamente cometidos por “um motociclista” em Goiânia. Ali, montou-se uma força-tarefa composta de dezesseis delegados de polícia civil, trinta agentes, dez escrivães. É como se entendessem que é o número de policiais escalados para uma investigação que faz diferença nos resultados dela, e não a multidisciplinaridade dos profissionais envolvidos. Resultado depois de nove meses de trabalho: caso ainda inconcluso.

Dessa forma, até onde se sabe, a polícia ainda não conseguiu determinar nem mesmo com que tipo de assassino está lidando. Pode ser um serial killer (assassino em série), que comete uma série de homicídios com um intervalo de tempo entre eles, vítimas têm o mesmo perfil e são mortas sem razão aparente. Também pode ser um spree killer (assassino impulsivo), aquele que atinge vítimas que estão no local errado, na hora errada, matando várias pessoas em um período de horas, dias ou semanas sem nenhuma explicação aparente. Ou podem ser vários assassinos, ou muitas combinações possíveis, se considerarmos a hipótese de copiadores, indivíduos que aproveitam uma série noticiada de crimes para eliminar um desafeto de forma disfarçada.

Alertar mulheres em geral para o perigo, sem planejamento estratégico de prevenção para vítimas-alvo, segundo o perfil determinado pela força-tarefa, tanto do assassino quanto das vítimas em questão, é arriscado e não resulta em maior segurança para quem anda pelas ruas de Goiânia.

Enquanto isso, ficamos na mesma nefasta estatística de índice de solução de homicídios no Brasil: vergonhosos 10% a 12% deles.  Quando se trata de crimes em série, o índice de solução deve ser muito menor. O despreparo do Estado é um armazém cheio de bombas relógio. Tic tac. Estamos, infelizmente, à espera da próxima vítima.

Publicado no site JOTA.info – canal inovador de notícia jurídica de qualidade.

Disponível em: http://jota.info/crime-em-serie-a-brasileira

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