Crime em cena: o próximo alvo no caso Richthofen

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Assistimos na semana passada o apresentador Gugu Liberato entrevistar Suzane von Richthofen, assassina de sua família, encarcerada há quase treze anos. A entrevista fascinou o público e alcançou índices de audiência surpreendentes. Enquanto as análises em geral focaram no tema de sua personalidade — psicopática ou não –, vou me ater, como criminóloga, às questões do comportamento criminoso em si.

No Caso Richthofen, algumas coisas sempre chamaram atenção, durante o longo processo de investigação e o júri. Ficou claro para todos os envolvidos que, para Suzane, família tem prazo de validade – e quando ele se esgota, ela as “elimina”, joga fora. Na minha conta, já eliminou, concretamente e figuradamente, três famílias: primeiro seus pais biológicos, depois de ter adotado a família Cravinhos como sucessora de seu bem-querer e devoção.

Durante seu julgamento no Tribunal do Júri de SP, assistimos como ela e sua defesa, serenamente, liquidaram a família Cravinhos, para decepção e confusão dos mesmos. Mas nessa data, já considerava como sua a família de Denivaldo Barni, seu advogado de Defesa. Estavam ali sentados em total apoio a ela, afagando-a e trazendo conforto para o que entendiam ser sua alma atormentada. Agora eles também foram eliminados de sua vida, substituídos, conforme assistimos na entrevista com Gugu: sua família é a de Sandra Regina Ruiz Gomes, sua atual companheira, de quem adotou até mesmo os sobrinhos.

Fica claro que seu “modus operandi” nesse quesito não se modificou. É o mesmo filme reeditado várias vezes. Então, o que esperar da agora mulher, que concedeu esta entrevista se mostrando madura, inteligente e tentando preparar sua progressão de regime penal com a aceitação da sociedade para o convívio humano?

Ao pesquisar sobre crimes em família, encontramos estatísticas americanas que, por si só, explicam muita coisa. Parricídio é um crime raro, porque rompe a barreira do sagrado quando executado. Nessa categoria de “matar os pais”, as mulheres representam 18% dos assassinos, mas apenas 3% dos filhos que cometem essa atrocidade são doentes mentais, enquanto no homicídio em geral eles representam 14% deles. Suzane nunca foi diagnosticada como portadora de doença mental.

Na classificação mundial e tipologia de crimes, ela é uma matadora de família. Seu motivo era o dinheiro e a liberdade de viver bem e como queria, sem a interferência daqueles que “atrapalhavam” seus planos. Temos sempre de analisar a combinação entre motivação, relação entre criminoso e vítima e a técnica utilizada pelos assassinos.

Nesse caso então, vale lembrar que Andreas, seu irmão “sobrevivente” dos fatos, ainda é parte de sua família original, mas não existe mais a relação amorosa e dependente entre os dois. Há muito seu irmão é adulto, não está mais emocionalmente amarrado a ela, que não exerce nenhum controle sobre a vida dele. Ele, sim, exerce controle sobre o dinheiro da família.

O raciocínio é simples: Suzane von Richthofen assassinou seus pais por dinheiro e de forma premeditada. Não renunciou à herança, apenas desistiu de lutar por ela. Então, em tese, ela ainda é herdeira de quem? De Andreas, no caso de sua morte. Há mais de uma década, Suzane reflete sobre os erros que cometeu e que a levaram à cadeia. Premeditou mal, pois os criminosos eram três jovens inexperientes e com excesso de confiança. Sem antecedentes criminais, portaram-se como amadores em ficção de baixa categoria.

Hoje em dia, está mantida a relação de coerência entre motivo e vítima. Preocupante: Andreas, de forma concreta e figurada, continua sendo um alvo em potencial. Ela só não será herdeira do irmão se ele fizer um testamento designando o futuro de seu dinheiro. Espero que já o tenha feito.

* Criminóloga e escritora, com treinamento em investigação e perícia forense em casos de homicídio pelo U.S. Police Instructor Teams. Atua como analista criminal em casos reais.

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