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Matadores de Família – Questão de Conceito

O caso recente acontecido em Campinas, em que Sidnei Ramis de Araújo assassinou a ex-mulher, quase toda a família dela e seu próprio filho em só evento, foi de grande repercussão. Fui procurada por diversas mídias para explicar a mente criminosa desse tipo, uma vez que acabei de publicar o livro Casos de Família, pela DarkSide Books. De imediato vários jornalistas queriam comparar os casos Nardoni e Richthofen a este triste episódio. Conceitualmente, isso não é possível. São casos divergentes por completo. Suzane von Richthofen e Alexandre Alves Nardoni assassinaram familiares, mas agiram como homicidas, não como matadores em massa. Nessa ultima categoria, podem agir os chamados “aniquiladores de família”- indivíduos que matam qualquer membro da família presente em evento eleito para vingar-se ou protegê-los do que julga insuperável, com frequência cometendo suicídio após o ato cruel e espetaculoso.
Estudiosos também mergulham no “amor distorcido” que esses indivíduos desenvolvem, como declarou o próprio Sidnei – “Eu não vou deixar você sofrer na mão dessa vadia mais não, filho”. Ao planejar essa ação de vingança com seu suicídio no final, “ama” o filho demais para deixar que o menino sobreviva ao seu ato.
Também não parece ser uma motivação de gênero – ele declara não ter raiva de mulheres, mas sim dessas específicas mulheres, desta particular família, por quem se sentiu traído e injustiçado. Pelo teor de suas mensagens, aparecem referências à uma alegada alienação parental, em consequência de denúncia por abusos sexuais dele em relação ao filho. Esses casos em que denuncias desse tipo aparecem são uma verdadeira tragédia, seja porque o pai realmente é abusador do filho, seja porque é inocente, mas até que se comprove a verdade, o juiz o afasta da criança. Na lentidão da justiça brasileira, um pai pode levar anos para estabelecer uma relação normal novamente com seu filho.
Sendo assim, os casos que se comparam a este são:
– Elk Alves da Silva – 2009 – Assassinou os 3 filhos e suicidou-se em Alphaville, SP.
– Roberto Pasquali – 2016 – Assassinou seus pais, esposa e filho, suicidando-se ao final, em Joinville, SC.
– Waldo de Carvalho Wunder – 2003 – Assassinou esposa e duas filhas e cometeu suicídio, na Barra da Tijuca, RJ.
Percebem a diferença? Eles analisaram seus casos, acusaram e defenderam, julgaram e sentenciaram, os seus e a si próprios. Bem diferente de quem elimina alguém da família por ser um obstáculo ao seu plano de vida. Aqueles que matam imaginando que serão “felizes” para sempre, sem culpa ou remorso.

Ilana Casoy

Livro: “Casos de Família: Arquivos Richthofen e Arquivos Nardoni”
Editora: DarkSide Books
Número de páginas: 528

 

E agora?

E agora, Francisco?
E agora, Pedrinho?
E agora todos aqueles que cumpriram pena ou estão presos há mais de trinta anos e querem sair? Seus crimes são hediondos? A sociedade não suporta a ideia de vê-los em liberdade? O que fazer com a lei, então, que garante o direito destes indivíduos de voltar ao convívio social?
Permanecem presos, enrolados na teia da covardia moral. A eles foi prometida a terra santa, todos fizeram a conta dia-a-dia, trabalharam para remirem a pena, confiaram na dita Justiça. Seus familiares os aguardam do lado de fora, receosos, porém saudosos. Construíram então castelos de areia?
Claro, estamos falando daqueles que a mídia se lembra, daqueles que ocupam os quadrinhos de exemplo nas revistas a cada crime de repercussão foco de reportagem especial. Estamos falando dos “famosos”, dos mitos construídos, dos crimes com direito a Linha Direta Especial. Os outros saem livres na data correta, no calendário legal, despercebidos no meio da superlotação das penitenciárias.
A verdade é que não se sabe o que fazer com criminosos conhecidos e talvez irrecuperáveis. Não temos instituições adequadas, não temos tratamento a oferecer. Não somos o oráculo para predizer se vão ou não matar novamente. Não nos cabe o papel de Deus; somos humanos regidos pela lei dos homens.
A lei é para todos? Através da história, sabemos que não. Não se pensa em mudar a lei, é mais fácil acomodá-la às necessidades momentâneas da sociedade.
Nos regimes autoritários a lei serve de instrumento para a vontade do detentor do poder. Supõe-se que na dita democracia, a lei seria aplicada sem discriminação de raça, cor, sexo, condição social ou portadores de deficiência etc. A cada caso em que vejo “truques” utilizados para manter João ou José presos, imagino o que será de mim quando quiserem calar a minha voz, ou minha escrita, ou minha ideia. Se eu não ficar do lado da lei, quem será por mim na minha hora?
Mal conseguimos acabar com a discriminação “nos elevadores deste edifício”, imaginem quando se trata de soltar da cadeia indivíduo que tem direito legal ao benefício, quando a imagem de quem o fizesse seria execrada pela sociedade e seu “clamor”. É o antigo julgamento em praça pública, com direito a linchamento legalizado pela sociedade.
Serial killers não existem juridicamente no Brasil. Cairiam constantemente nos casos de crime continuado, onde se faz uma verdadeira liquidação: mate quatro pelo preço de um e meio ou dois, não fosse o trabalho de formiga de promotores vestidos com capa e espada, atentos aos trâmites legais do Ministério Público. Não existe a figura jurídica do assassino em série, nem a lei que se aplicaria a ele. O que fazer então com a realidade que nos assoma, implacável e cruel?
Vários matadores seriais cumprirão suas penas um dia, ainda em plena forma, uma vez que nossa pena máxima hoje é defasada da media de vida do brasileiro. Mesmo que a lei se modificasse hoje e sem demora, ela não seria retroativa. Como incluir a periculosidade em exame pericial, se não podemos prever o futuro? Seriam os serial killers caso de medida de segurança então, nossa prisão perpétua tupiniquim, correndo o risco de um psiquiatra menos preparado cair na charmosa conversa de psicopatas incorrigíveis? Devemos misturar psicopatas, indivíduos com perturbação e não doença mental, com loucos em manicômios judiciais? A que padrão podemos obedecer?
Francisco Costa Rocha matou duas mulheres e está interditado civilmente, preso em Taubaté ad eternum, rotulado de incapaz. O Monstro do Morumbi é suspeito de ter assassinado 24 mulheres e saiu da prisão em 2002, depois de, quietinho, cumprir seus trinta anos máximos permitidos. O Maníaco do Parque sairá também livre, de mãos dadas com Mateus da Costa Meira, ambos julgados sãos e imputáveis pela lei. Isso só não acontecerá se foram lembrados em programas de TV e mantidos trancafiados por medidas não tão legais assim.
Ou quem sabe, em meio a OABs, Supremos, Superiores e CPIs, alguém levante a discussão e encare o problema, com coragem moral para erguer a voz contra a arbitrariedade, mesmo a certo custo.

Revista Ciência Criminal
Julho de 2006

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